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Setembro azul: a luta dos Surdos

Atualizado: 13 de Abr de 2019


Fonte: Jornal Capital do Entorno - 1 a 15 de outubro de 2018 - N 71

Finalizamos o mês de setembro. Nesse mês, a Comunidade Surda comemora o Setembro Azul. Celebramos nossa identidade e nossa cultura, entre outros aspectos relacionados à Comunidade Surda. A Comunidade Surda mostra a importância da sua luta, do jeito surdo de ser, de sua capacidade, desconstruindo o olhar ouvintista que atribui incapacidades e dificuldades aos surdos. A sociedade precisa conhecer melhor os vários aspectos relacionados à Comunidade Surda e entender que existem direitos linguísticos legítimos reservados a ela. Então, no dia 26 de setembro, dia do surdo, há comemorações em todo o território nacional. A Comunidade Surda mostra a sua representatividade, suas lutas e conquistas e, historicamente, toda a trajetória dos surdos, além de seus direitos como cidadãos. Então, por que 26 de setembro? Essa data lembra a criação do INES, Instituto Nacional de Educação de Surdos, em 1857, no Rio de Janeiro. Esta foi a primeira instituição brasileira dessa natureza, que fez com que a educação de surdos se expandisse para os demais estados do Brasil. Essa data comemorativa oportuniza, além de conhecimentos relacionados às possibilidades do surdo, o de trazer o entendimento de que há uma diversidade de identidades surdas que compõe essa comunidade. Tudo isso foi explanado na palestra que proferi nessa comemoração mais recente. Tratei dos desafios e das lutas da comunidade surda, com exemplos de valorização, dos direitos humanos, de possibilidades mediante a acessibilidade à Libras, que é própria dos surdos. Por se tratar de uma língua visual, ela também possibilita o aprendizado do português como segunda língua. As crianças surdas, quando recebem uma educação bilíngue, tendo como modelo um surdo adulto, interagem em sua língua, conquistam seu desenvolvimento, assim como constróem sua identidade e cultura, aprendendo, ainda, o português escrito. Aquela história de muito sofrimento, dificuldades, lutas, impedimentos e falta de comunicação tomou novo rumo no dia 24 de abril de 2002, com a sansão da Lei de Libras, que garante e apoia maior interação da Língua de Sinais, promovendo o aprendizado, valorizando a comunicação, possibilitando melhor autoestima e o desenvolvimento linguístico da comunidade surda. Quando visito os espaços em que os surdos estão incluídos nas escolas-polos, busco mostrar aspectos da língua, da identidade, da cultura e da história, partilhando com todos informações importantes, que muitos desconhecem. Também incentivo os surdos, mostrando-lhes seu potencial de desenvolvimento, seus direitos de acesso à língua, o que impulsiona nossa comunicação. Conto aos surdos sobre nossa identidade e cultura, dentro da diversidade que constitui a Comunidade Surda. Explico-lhes como acontece a acessibilidade e observo, atentamente, as opiniões de cada um. Antes, o que era impedimento, torna-se, hoje, uma forma de acesso, mediante a relação de convivência entre ouvintes e surdos. Quando as duas comunidades (surda e ouvinte) interagem, as adequações das línguas são realizadas, os conhecimentos vão sendo produzidos e a língua vai possibilitando tudo isso. O Brasil possuí 9 milhões e 700 mil pessoas surdas ou com algum tipo de deficiência auditiva. Nesse grupo podemos encontrar os surdos índios, os surdocegos, os implantados, os surdos oralizados, os sinalizantes e os surdos bimodais, uma diversidade que constitui essa comunidade. É preciso saber respeitar a Língua de Sinais como primeira língua e o português escrito como segunda, independentemente das necessidades de cada um. A união de cada segmento dessa diversidade é importante para a garantia dos direitos de todos. O lema “Nada Sobre Nós Sem Nós” traz o que também foi decidido na Convenção da ONU: o respeito às opiniões dos surdos e o de acabar com toda forma de opressão. O respeito às opiniões dos surdos e às propostas de acessibilidade perpassam pela disponibilização de tecnologias à Comunidade Surda, pela garantia de profissionais intérpretes e de professores fluentes em Libras, que sabem de seus papéis de atuação, estabelecendo a comunicação e o desenvolvimento da expressão, na qual o surdo seja o protagonista. A Comunidade Surda precisa entender os diversos segmentos que compõem os espaços ocupados por ela e as línguas que transitam nesses espaços. Foi por isso que na palestra que proferi, realizada no IFB do Gama, no último dia 26 de setembro, pela manhã e à tarde, na presença de professores e alunos surdos, interagimos e trocamos experiências. Falei um pouco sobre quem sou: professor do Curso de Licenciatura em Língua de Sinais Brasileira-Português como Segunda Língua - LSB-PSL / UnB, líder surdo envolvido nos movimentos em defesa da Comunidade Surda, Diretor de Políticas Educacionais e Linguísticas da FENEIS no Distrito Federal. Em minhas explanações sobre a Comunidade Surda, pude mostrar quem é o indivíduo surdo, e os alunos surdos presentes ficaram impactados e participaram, trazendo suas próprias visões sobre o tema. Por fim, tratei do entendimento das diferenças entre o funcionamento de uma escola inclusiva e de uma escola bilíngue. As intervenções e as trocas realizadas possibilitaram maior conhecimento sobre a cultura e identidade da Comunidade Surda. Entre os desafios do protagonismo surdo está a luta pelo direito linguístico à Língua de Sinais. Somos sujeitos diferentes, com identidade própria e cultura visual. Falamos com as mãos; somos sujeitos SURDOS; fazemos a nossa história. Destaco a valorização desses espaços de discussão na perspectiva do indivíduo surdo, de suas conquistas e de seus direitos, oportunizando aos alunos surdos enxergar a si mesmo e ao outro, a internalização de sua identidade e cultura surda, os aspectos visuais da Libras, o conhecimento dos seus direitos linguísticos e de seu protagonismo. A comemoração trouxe o sentimento de reconhecimento dessas conquistas e das mudanças já alcançadas no Brasil, sejam elas identitárias, políticas, e, principalmente, de acessibilidade. Por isso, parabenizei e parabenizo todos os surdos, todos os dias, e não somente no dia 26 de setembro. Precisamos mostrar o nosso orgulho, a nossa força, a nossa identidade através desses movimentos por todo o Brasil. Ao fazer isso, mostramos como a Libras, a identidade e a cultura internalizadas notabilizam nossa autoestima e nos tornam protagonistas de nossa história.

Autor: Messias Ramos Costa

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