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O caminho da inclusão. Um mercado cheio de ruídos

Contratação de deficientes auditivos é baixa e, quando o emprego surge, a falta de ações que facilitem a comunicação entre os funcionários quase sempre compromete o desempenho do profissional surdo.


Carmen Souza - Da equipe do Correio


Somos 184 milhões de brasileiros. De norte a sul, adeptos da mesma língua, o português. Mais carregado num canto, meio carcomido noutro, mas unânime. Não único. Desde abril de 2002, a Língua Brasileira dos Sinais (Libras) é reconhecida como a segunda língua do país. Mas o principal instrumento de comunicação dos surdos ainda não oficializou o seu lugar no mundo do trabalho. Seja porque os demais funcionários não a entendem, seja porque a possibilidade de contratação de inté rpretes é tida como onerosa. Nesse roteiro de desencontros, um resultado é exato: há poucas oportunidades para quem tem a audição comprometida, 61% deles trabalham, e são mínimas as chances de encarreiramento. 






Defensor ferrenho da Libras, Messias é pós-graduado e está prestes a concluir a segunda graduação



“Em um primeiro momento, eles (os deficientes auditivos) até levam vantagem. O empregador acha que não terá que investir em acessibilidade, como no caso dos cadeirantes, e dá prioridade ao surdo. Depois, por conta da comunicação, as dificuldades começam a aparecer”, diz Jarbas Batista de Oliveira, diretor do Instituto Educacional São Paulo, escola da Divisão de Educação e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Derdic). Segundo Jarbas, a média de permanência dos surdos em um emprego gira em torno de três meses. “O problema da rotativid ade alta é que chega um momento em que o empregador não quer mais um candidato que já passou por vários lugares”, pondera o diretor.Jarbas dedica-se à inclusão de deficientes auditivos há 37 anos. O início da atividade foi marcada por uma estatística pouco estimulante. Naquela época, apenas nove surdos trabalhavam formalmente em São Paulo. Nos últimos três anos, a média de colocação do instituto é de 80 surdos anualmente. De lá para cá, eles mudaram a estratégia de atuação. Em um prim eiro momento, os alunos eram submetidos a cursos longos de qualificação. Agora, as formações são mais pontuais, focadas em habilidades valorizadas pelo mercado, como iniciativa e capacidade de trabalho em equipe. “Por conta do aperto da fiscalização, as empresas não têm tempo para cursos muito demorados, precisam contratar o quanto antes”, justifica.


Na pressa, as imperfeições aparecem. É comum a Associação dos Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos do Distrito Federal (Apada) ser pr ocurada por empresas que não sabem como lidar com funcionários surdos. Na maioria dos casos, a comunicação entrava as relações. É uma ordem que insiste em não ser cumprida ou um questionamento fora de propósito. “Por isso a importância de o surdo ser informado com relação aos seus direitos e deveres e a necessidade da construção de um ambiente de trabalho que seja realmente inclusivo. Tudo isso antes da contratação”, defende Rosana Cipriano Jacinto, presidente da organização não-governamental.


Senso comum


Essa contratação um tanto amadora, acredita Isabel Thompson, é resultado de uma falta de entendimento mais profundo com relação à questão da surdez. “De uma forma geral, para a sociedade, o surdo é o avô que foi perdendo a audição ao longo do tempo. As pessoas conhecem pouco sobre a criança que nasce surda”, exemplifica a chefe da Divisão de Qualificação e Encaminhamento para o Mercado de Trabalho do Instituto Nacional de Educação dos Surdos. Um ruído cultural qu e atinge em cheio a inclusão no mercado de trabalho, já que a maioria dos deficientes auditivos, 60,9%, herdou as suas limitações da genética.

A estatística é resultado de um levantamento feito pela Agência de Marketing a partir dos dados do Censo de 2000. A sondagem também revela que, entre os deficientes, os surdos são proporcionalmente os que mais exercem atividades com carteira assinada, em que os direitos trabalhistas são garantidos. “Isso acontece muito porque, mais uma vez devi do à comunicação, é difícil para o deficiente auditivo ser um profissional autônomo. Mas estamos evoluindo. Temos alguns contadores surdos e a quantidade de professores tem crescido bastante”, avalia Jarbas Batista, do Derdic.


Aos 29 anos, Messias Ramos Costa ministra a igualdade nos corredores da Universidade de Brasília (UnB) desde agosto de 2007. E como dono da lição, o primeiro professor surdo da UnB determina como alunos vão aprender a Libras. Em mais de 95% das aulas não há intérprete. “Caso contrário, a pessoa não pensa em Libras, que é a nossa língua. A oralização do surdo é possível, mas não pode ser uma obrigação”, justifica o professor, com tradução de Edeilce Buzar, intérprete de Libras. A estratégia é a mesma adotada nas turmas da Faculdade de Ciências Sociais e Tecnológicas, a Facitec.


Surdo profundo, Messias perdeu a audição aos oito meses de vida por conta de um antibiótico errado contra o sarampo. Ele não é oralizado. Ainda assim, concluiu uma lic enciatura em pedagogia, é pós-graduado em Libras há um ano e, desde 2006, está de volta aos bancos da universidade para fazer uma graduação em letras Libras. “O próximo passo será um mestrado em lingüística ou educação”, planeja. Poeta nas horas vagas, Messias também é o diretor regional da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos no Distrito Federal. Reaberta em 2006, a Feneis/DF trabalha principalmente na defesa da Libras. “O surdo fala uma língua diferente. Incluir significa respeitar essa singularidade” , defende.


INCLUA AÍ…“Uma semente crescendo e influenciando todas as empresas para que recebam, no coração de Brasília, um desafio: tratar com igualdade a diferença. Brilha o respeito à comunidade surda, aos seus direitos, ao trabalho, à inclusão social” Trecho do poema Semente da igualdade, de Messias Ramos Costa , deficiente auditivo

 

De preferência, oralizado 


Para não gastar com intérprete de Libras, empresas priorizam os deficientes auditivos que falam o português. Mesmo empregados, surdos nem sempre encontram chances reais de ascensão profissional.


Carmen Souza

Da equipe do Correio


A maioria das vagas que chega à mesa de Maria Inês Serra tem a condição explícita: quanto menor a deficiência, melhor. Há 26 anos trabalhando com a inclusão de surdos, a assistente social do Centro Educacional de Audição e Linguagem Ludovico Pavoni (Ceal) não mede esforços para sensibilizar os empregadores, mas reconhece: as chances de exercer uma profissão aumentam quando o candidato está o mais próximo possível da dita normalidade. “Os surdos oralizados, que falam o p ortuguês, têm preferência no mercado de trabalho”, diz.


Instituições de assistência ao deficiente auditivo questionam o requisito. A oralização do surdo é a longo prazo, requer apoio de fonoaudiólogos, pedagogos, psicólogos, uma estrutura que não é oferecida com plenitude pelo sistema público de saúde. Além disso, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a primeira forma de comunicação dos surdos. “A maioria dos deficientes auditivos sabe Libras, que é oficial. Nossa realidade não é or alizada e as empresas precisam respeitar isso”, defende Messias Ramos Costa, diretor regional da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos no Distrito Federal (Feneis/DF).


Uma alternativa ao problema da comunicação são os intérpretes. Não há muitos no mercado, diz Nadija Aretuza Magalhães, que traduz Libras há 10 anos. Mas a demanda do mercado também é regida pela escassez. “É muito raro eu ser convidada por uma empresa para trabalhar como intérprete em uma entrevista de emprego”, exemplifica ela. Nadija acredita que a figura do tradutor é importante também nos casos em que o candidato ou funcionário é oralizado. “Quase sempre a dicção não é perfeita. Então, a nossa presença pode evitar mal-entendidos” , justifica.


A baixa procura por intérpretes de Libras tem a economia como razão. “Os empresários dizem que acabam tendo que contratar dois funcionários: o surdo e quem vai ajudá-lo na comunicação”, explica Maria Inês. O serviço de um intérprete geralment e é cobrado por hora e custa em média R$ 60. O que poucos empregadores sabem é que a presença do tradutor não é sempre necessária. Quando o ambiente é preparado para o profissional surdo, ele consegue exercer as suas funções com autonomia. “O serviço é essencial para repassar orientações sobre as obrigações do funcionário e em eventos coletivos, como uma reunião do RH com os empregados ou na festa de final de ano”, diz Isabel Thompson, chefe da Divisão de Qualificação e Encaminhamento para o Mercado de Trabalho do Instituto Nacional de Educação dos Surdos.


Outra saída é ensinar a Libras aos funcionários que terão contato com o deficiente auditivo. No Distrito Federal, o serviço é oferecido pelas instituições voltadas para a inclusão social do surdo. Há cursos com duração variada e a maioria deles é ministrada nas dependências do contratante. Na Associação dos Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos (Apada), por exemplo, uma qualificação de 60 horas custa R$ 480. “Se pensarmo s que é um investimento para aprender uma língua, não é caro. Há cursos de inglês que custam isso”, compara Rosana Cipriano Jacinto, presidente da organização não-governamental. Os instrutores da Apada são deficientes auditivos. “Também é uma forma de abrir o mercado para eles”, justifica Rosana.


Tecnologia

Diretor do Instituto Educacional São Paulo, escola da Divisão de Educação e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo ( Derdic), Jarbas Batista de Oliveira destaca que a tecnologia também facilita a relação no ambiente de trabalho. Computadores e celulares permitem a comunicação praticamente instantânea entre os funcionários, independentemente do comprometimento auditivo. Provavelmente por isso o acesso ao computador entre os surdos seja o maior entre os deficientes. Segundo levantamento da Agência de Marketing, 68,2% deles mexem com as máquinas. A média entre as pessoas com deficiência é de 56,7%.


Marcelo Amemiya está entre os informatizados. É por meio de mensagens eletrônicas que esse deficiente auditivo de 41 anos cuida das faturas de um contrato da Unimed nas regiões Norte e Nordeste. “Pela falta de cultura e conhecimento, as pessoas criam obstáculos para a comunicação. Aqui, não tenho dificuldades em desempenhar as minhas funções, pois tenho apoio de todos no setor”, responde ele por e-mail. O entrosamento é tanto que o encarreiramento mexe com Marcelo, surdo congênito por conta da rub éola. “Desejo fazer cursos na área de informática. Quem sabe num futuro próximo eu possa integrar a equipe do CPD (processamento de dados) desta empresa”, planeja .


A ascensão profissional não é sonho só de Marcelo. Pelo contrário. Está entre as prioridades das instituições assistenciais, que brigam pela abertura de vagas com maior grau de complexidade. “Em Brasília, temos 30 surdos pedagogos, preparados para serem professor, mas só aparecem vagas de auxiliar”, reclama Messias, da Fene is/DF. Segundo o Censo Escolar de 2007, há 1.400 deficientes auditivos nas faculdades. As ofertas de emprego que chegam ao Ceal, no entanto, dificilmente têm salários superiores a R$ 700.


Apesar da resistência, Naliana Sandoval Rodrigues, que trabalha na Unimed com Marcelo, não abre mão do título de graduada. A jovem surda, de 26 anos, terminará o curso de pedagogia no próximo ano. O investimento ocorreu depois do primeiro emprego na cooperativa de saúde, em 2004. A expectativa de Nal iana, que é oralizada, é de que o reforço no currículo seja encarado pelos empregadores como prova de persistência. Habilidade, aliás, valorizada pelo mercado de trabalho. “Me empenho bastante para exercer outras funções e quem sabe no futuro administrar uma escola”, conta. Naliana e Marcelo são analistas de contas médicas da Unimed. Recebem R$ 1.059 mensais pelo trabalho.


INCLUA AÍ…


“O Marcelo começou digitando, foi conquistando espaço no setor e hoje já é responsável por um tipo de fatura da Unimed. Tudo é resolvido por e-mail e quinzenalmente nos reunimos para conferir o relatório. A experiência deu tão certo que ele acabou abrindo as portas para a Naliana”


Maurício Maciel, chefe imediato de Marcelo e Naliana


Muito mais difícil para surdocegos


Ter mais de um sentido comprometido significa enfrentar um mercado de trabalho ainda mais restrito. É o caso das pessoas que não enxergam nem ouvem. Segundo a Associação Brasileira de Surdocegos (Abrasc), há cerca de 2.750 no país. A maioria delas começando agora a se preparar para atender as exigências dos empregadores. “Não somos procurados para indicar guia-intérprete para entrevistas de emprego”, conta Carlos Jorge Rodrigures, presidente da Abrasc. “Quem sabe em um futuro próximo tenhamos esse tipo de trabalho. A maioria dos surdocegos ainda está estudando ou voltou a estudar depois da deficiência”, completa por e-mail.


Segundo o Censo Escolar de 2007, em todo o país, há 489 surdocegos no ensino fundamental, 18 no ensino médio e apenas quatro em cursos de educação profissional. Sede dos parlamentares, o Senado também abriga uma condição rara no mercado brasileiro. Desde março, José Ricardo Moura Moreira Lima, surdocego, é temporário da gráfica d a Casa. Tem um chefe cego e cinco colegas de trabalho também deficientes visuais. “Fiquei 12 anos esperando uma oportunidade. Dificuldades existem, mas elas estão aí para serem vencidas”, conta José, dono de uma dicção perfeita. Aos 30 anos, ele é cego e, com o aparelho auditivo, tem 75% da audição. Sem, a capacidade não chega a 5%.

Ainda assim, esse brasiliense de Ceilândia Sul concluiu o ensino médio em 1997 e já começou a procurar um curso de graduação, que será em filosofia. “Procurei algumas faculdades particulares, mas quando digo que sou surdocego, eles nem retornam. Queria um curso presencial, mas acho que terei que fazer um a distância”, reclama. Revisor de texto em braile, José Ricardo passou a pensar no curso superior quando trocou a pensão de um salário mínimo pelo trabalho no Sen ado. “Aqui, recebo seis vezes mais”, comemora. “Vivia dentro de casa. Até meus pais questionavam se eu daria conta. Estou aqui hoje para provar o contrário.”


INCLUA AÍ…

“A deficiência visual é meio que uma imposição para ser revisor de braile. Com relação à auditiva, José Ricardo tem uma capacidade boa de concentração, que facilita o trabalho. Durante muitos anos, fui o único funcionário cego do Senado e acredito que as relações devem ser pautadas pelo lado profissional. Não importa se a pessoa é deficiente, o importante é que ela desempenhe um bom trabalho”


Paulo Brandão, chefe de José Ricardo

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